A hora dos brechós virtuais


Internet potencializa e facilita comércio de vestuário, mesmo o de peças usadas

Comprei pra VC

Leonardo Pereira

Há alguns anos podia ser difícil e caro encontrar aquela roupa que a estrela de Hollywood usava ao ser flagrada pelo paparazzi; montar o look de uma estrela do rock, então, era tarefa árdua e, não raro, decepcionante. Mas entre os vários muros que a internet derrubou estão os que separavam o público dos artistas e sua vestimenta, e é claro que o Brasil está aproveitando esses ventos para fazer negócio.

Por aqui tem havido uma explosão de sites pequenos cuja intenção é justamente responder a essa demanda, dando um jeito de aproximar o mercado da moda cada vez mais à nossa realidade – seja com peças autorais, seja adotando um modelo 2.0 de brechó. Há quem trabalhe com decoração, acessórios, entre outras coisas que ajudam os clientes – geralmente “as” clientes – a se inserirem num contexto antes bem exclusivo, como o AIRU, que reúne tudo.

“A internet possibilita e potencializa a democratização do empreendedorismo a partir do momento em que mitiga os riscos e permite ao empreendedor experimentar e validar seu modelo de negócio”, diz Luiz Barretto, presidente do Sebrae, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.

E os ventos são mesmo favoráveis. A partir de 2007, os dados de crescimento e faturamento no Brasil se tornaram expressivos, com alta sempre de dois dígitos. Dados da e-bit revelados por Barretto mostram que o setor cresceu mais de 20% em 2012 na comparação com ano anterior, com um faturamento acima de R$ 22,5 milhões.

Não à toa a entidade lançou, em parceria com o Mercado Livre, um serviço pelo qual os próprios internautas podem criar suas lojas virtuais, o que faz com que quem tem ideia, mas não intimidade com tecnologia, se livre do desenvolvedor – pelo menos num primeiro momento. Há quatro modelos de loja no Primeiro E-Commerce, e todos permitem integração ao Facebook. A página ainda oferece cursos online gratuitos e informações que ajudam a capacitar o empreendedor.

Mão na massa

Para quem não tem problema com tecnologia a coisa fica ainda mais fácil, como no caso da programadora Sarah Galantini, que aos 26 anos é responsável pelo Comprei pra VC. O site reúne peças que ela adquiriu mas acredita que cairiam bem em outras garotas também. “Eu adoro comprar mil coisas (às vezes compro e nem uso) e gosto de tirar fotos, então pensei em juntar os dois e vender o que eu tenho sobrando, que é muita coisa. Foi aí que surgiu o blog”, conta.

Ela não está sozinha. Os brechós 2.0 provocaram tanto barulho que a cidade de São Paulo já tem até festa que reúne música e vendas, trazendo o comércio virtual para o mundo palpável. É o caminho inverso ao tradicional, já que normalmente a loja existe em endereço físico e, para se adaptar ao momento atual, cria um e-commerce. Isso ajuda a suprir uma deficiência do modelo virtual: a distância. “Com a loja física consigo ter um feedback mais real do cliente, consigo abordá-lo e convencê-lo a realizar a compra e solucionar qualquer dúvida, algo que na internet tenho que depender do interesse dele”, salienta a estilista Mayara de Abreu, de 24 anos, que comanda com três sócios a grife Mustache S/A. Por outro lado, diz ela, na web dá para alcançar lugares que uma loja física não consegue, e com custos baixos.

“Na internet a apresentação do produto tem de ser impecável, o site precisa ser fácil de mexer e você precisa passar uma segurança muito maior ao cliente. Os esforços para vender existem nos dois mundos, apenas a forma de agir muda”, esclarece a estilista. Vale tudo: misturar Facebook, Pinterest, Twitter… tanto que se você procurar pela hashtag #compreipravc no Instagram provavelmente vai se deparar com algum post de Sarah – o que é bom, pois, como analisa o presidente do Sebrae, “o comércio social explora a interação entre comerciantes e consumidores e, quando bem administrado, aumenta a probabilidade de compartilhamento de informações e avaliações positivas”.

Profissional?

O nível relativamente baixo de passos burocráticos é um belo incentivador para quem se aventura nesse meio, levando em conta que o Brasil está entre os piores países do mundo para se empreender. De acordo com estudo da Doing Business, estamos na 126ª posição de um ranking que tem 183, e parte disso é culpa da burocracia (saiba mais). Mas até neste ponto as barreiras estão ficando para trás. Assim como nos negócios físicos, quem está no online também precisa de registro da empresa, emissão de nota fiscal e pagamento dos tributos devidos. Foi o que fez Mayara. “Tive de abrir empresa e registrar o nome da marca, não foi tão complicado porque nesse sentido o governo soube desburocratizar muita coisa, basta se manter informado”, reconhece.

Pelo que conta Barretto, a estilista está certa: “O ambiente legal para as micro e pequenas empresas melhorou muito nos últimos anos, desde a criação da Lei Geral do segmento, a criação do Simples – que reduz em média 40% da carga tributária dos pequenos negócios – e a criação do Microempreendedor Individual, permitindo a formalização de atividades com faturamento médio de R$ 5 mil por mês”, aponta. “Hoje, uma pessoa que vai iniciar um negócio próprio acessa na internet o Portal do Empreendedor, faz o cadastro online como Microempreendedor Individual e recebe o CNPJ.”

Não é um modelo de negócio convencional, em alguns casos até surge como hobby, e por isso a profissionalização costuma vir com o tempo. Tanto Sarah quanto Mayara querem tornar seus serviços rentáveis – a Mustache S/A se banca sozinha, então os sócios agora buscam o lucro, já o Comprei pra VC sequer tem status de empresa, e sua dona ainda não o tem como principal fonte de renda. “Estou trabalhando nisso”, garante.

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